
beeeijos
As estrelinhas do céu resolveram certo dia, descer do azul, abandonar a altura do sem-fim e vieram todas, muito alegres, viver, na Terra, entre os homens.
Vamos para a Terra! Vamos para a Terra! - gritavam, com alegria, as estrelinhas do céu. - Na Terra há mares, há rios e há florestas! Na Terra há frutos, há flores e há perfumes. Vamos todas para a Terra!
As estrelinhas falaram ao anjo da serena compaixão.
O anjo da serena compaixão é que vigia e comanda, por ordem de Deus, todos os astros luminosos do céu.
O anjo da serena compaixão sabia que as estrelas, que parecem, lá longe no céu, tão pequeninas, são grandes, imensas. E foi, por isso, falar a Deus, o Senhor da Eterna Bondade
- Deus Poderoso - disse, muito humilde, o anjo - as estrelinhas do céu querem ir a Terra. Mas elas são pesadas, enormes e cheias de calor. A Terra não poderia conter as constelações que povoam o céu.
Deus, o Senhor do Mundo, sorriu bondoso e respondeu
- Ora, tudo é muito simples. Eu permitirei que as estrelinhas desçam do céu e passem a viver na Terra. Sim, irão para a Terra. Mas elas descerão do céu e permanecerão, assim, pequeninas, como aparecem lá das alturas; pequeninas e bem pequeninas. E sempre pequeninas e brilhantes permanecerão na Terra.
E todas as estrelas, por ordem de Deus, desceram do céu e vieram para a Terra.
Houve, nesse dia, ao cair da noite, uma chuva maravilhosa de estrelas.
Uma chuva de estrelas!
No céu ficaram o Sol, a Lua e um cometa rabugento, de cauda comprida, que não quis descer. Mas as estrelinhas desceram.
e encheram a terra. Espalharam-se por toda parte. Pelos campos, pelas praias, pelas estradas e pelos jardins.
Havia estrelinhas brancas, azuis, verdes, roxas e amarelas. Havia até (vejam só!) uma estrela furta-cor!
Que beleza!
Algumas ficaram bem quietinhas, a cintilar, no alto das torres; vieram outras pousar nas fontes, nos repuxos, ou saltitar entre as flores e iluminar os bosques.
As pequeninas, brincalhonas, apostavam corrida com os vaga-lumes: outras iam devagarzinho assustar os sapos que cochilavam tranqüilos entre as pedras junto das lagoas.
Que alegria para as crianças! Que alegria!
Mas, em poucos dias as estrelinhas começaram a fugir da Terra, aos grupos, aos bandos. Deixavam a Terra e voltavam para o céu. Voltavam a brilhar lá em cima, para além das nuvens, para além da Lua
O anjo da serena compaixão ao ver que as estrelinhas voltavam, interrogou-as
- Por que vocês voltaram?
A primeira estrela respondeu
- Senhor! Vi tanta maldade na Terra que fiquei triste. Muito triste. E resolvi voltar para o céu.
Perguntou, o anjo, a uma terceira estrela. - E você? Por que voltou?
Senhor - respondeu a estrelinha - na Terra, durante os três dias que lá passei, vi homens ricos sem piedade; vi enfermos abandonados; velhos sem lar, que vivem famintos, na miséria. Vi crianças andrajosas que mendigam pão pelas ruas. Tudo isso encheu de mágoa o meu coração. Resolvi voltar. Voltar para o céu.
Uma estrelinha amarela, do cruzeiro, seguida de outras três (que eram suas irmãs) voltava também. O anjo da serena compaixão perguntou-lhe :
- Que viu você na Terra, estrelinha amarela? Por que voltou?
Respondeu, cheia de funda mágoa, a estrelinha amarela do Cruzeiro:
- Senhor, vi na Terra homens sem fé que não crêem em Deus! Sofri, com isso, um profundo abalo. Que tristeza! Homens ateus! Deixei a terra e resolvi voltar para o céu
E assim todas as estrelinhas, por terem visto maldades na Terra, voltaram para o céu. E cada uma, ao chegar, ia muito quietinha, retomar o seu antigo lugar no meio das constelações.
O anjo da serena compaixão achou que devia contá-las. E contou-as, uma a uma!
- Um, dois, três, quatro, cinco...
E nessa conta, uma a uma, foi até vinte mil e seis
Vinte mil e seis!
Estranhou aquela conta, e disse:
- O que é isso? Essa conta não está certa. Desceram vinte mil e sete estrelinhas, e só voltaram vinte mil e seis! Está faltando uma! Falta uma estrelinha!
- Sim, sim - confirmou uma estrelinha azul que estava perto. - Falta uma estrelinha. Houve uma companheira que não quis voltar. Resolveu ficar,
para sempre, entre os homens.
Perguntou o Anjo:
- Que estrela foi essa? Qual foi a que não voltou?
A estrela azul, falando muito baixinho, respondeu:
- Escuta, anjo da serena compaixão. Foi a Estrela Verde da Esperança, nossa boa amiga e companheira, a única que não voltou.
- Ela Ficou a estrela verde da esperança!
É por isso, amigos que os homens, todos os homens, nos momentos mais tristes da vida, nos momentos de perigo, de dor ou de aflição, nunca perdem a esperança...
É que a estrelinha da esperança, nossa boa amiga, deixou o céu e veio (diz a lenda) viver na terra. E vive, para sempre, no coração dos homens.



